Muita gente considera como principal objectivo do treino, a busca de um nivel de rendimento elevado. Esta perspectiva não está errada, no entanto tal situação só pode ser alcançada quando estiverem preenchidos determinados requesitos dos quais a resistência à fadiga, provocada pelo treino sistemático, ocupa papel de realce. Assim sendo, devemos conhecer os mecanismos responsáveis pela fadiga e sua projecção fisiológica e bioquímica, factores que devem estar presentes no processo de treino de todos aqueles que buscam um controlo eficaz dentro da sua actividade.
Existe um vasto leque de definições para este estado de condição física, mas todos nós pessoalmente temos uma definição personalizada uma vez que, atletas ou não, já experimentamos esta condição.
Num atleta, este estado físico, pode originar situações desesperantes, quando de um momento para o outro sente fugir aquilo pelo que lutou durante uma época ou durante toda a sua carreira, tornando-se impotente para a para alcançar o seu objectivo.
"A vitória, seja sobre si mesmo ou sobre os outros é para o atleta a meta principal". Por isto é fácil compreender que a fadiga é o principal adversário do atleta.
"Fadiga é a ruptura temporária do equilíbrio interno (homeostasia), ou mais especificamente, fadiga é a falta de capacidade para manter ou repetir uma determinada força pela contracção muscular".
A fadiga do músculo estriado é a que se encontra mais bem fundamentada, sendo definida por:
- provocada pelo funcionamento desse músculo;
- quando um estímulo adequado se mantém constante;
- a diminuição da capacidade funcional é reversível com o repouso.
Existem vários tipos de fadiga logo são múltiplos os factores que podem estar na sua origem.
1-Fadiga Tissular: com sede nas fibras contrácteis e resultante de alterações fisiológicas e bioquímicas, no próprio músculo.
2-Fadiga no sistema de comando: tem lugar no sistema nervoso central
3-Fadiga no sistema de transporte: provocada por um insuficiente transporte de elementos nutritivos aos órgãos funcionantes.
No atleta fatigado, é normal a coexistência dos três pontos referidos anteriormente, aquilo que varia consoante as características do exercício é a preponderância de um ou de outro.
Podemos considerar dois
tipos de fadiga: a Aguda e a Crónica. A primeira surge após esforço e desaparece com o repouso; a segunda instala-se no atleta quando existe um desajuste do volume de trabalho e repouso, por excesso de treino ou de competição e o seu inicio é na maioria das vezes insidioso.
Falemos de fadiga aguda, podemos considerar vários tipos de fadiga:
- Fadiga Local, como o próprio nome indica, deve-se a um esgotamento do próprio músculo. Isto é susceptível de acontecer no exercício estático. O treino atrasa o seu aparecimento, que iremos aprofundar mais tarde.
- Fadiga Geral, é consequentemente a um esgotamento progressivo das reservas de glicogénio com desidratação agravada por um aporte deficiente de água, electólitos e glucidos de assimilação rápida. Duma maneira geral trata-se de uma hipoglicémia muito grave que pode levar à morte, que iremos aprofundar mais tarde.
- Fadiga Sensorial, traduz-se numa menor qualidade de movimentos com falhas de coordenação provocando sensações deficientes, fadiga visual ou auditiva. O treino atrasa o seu aparecimento.
- Fadiga Mental, está intimamente relacionada com a anterior e resulta da falência do sistema nervoso central em descodificar a quantidade excessiva de informações que chegam ao cérebro.
- Fadiga Ambiental, está relacionada com o meio ambiente como o frio, calor, vento, alternância dia-noite. O treino em fases atrasa-a ou anula-a.
- Fadiga Social, está relacionada com o tipo de vida em sociedade, tanto familiar como profissional, intelectual e desportiva. Traduz-se em alterações de humor e do comportamento.
- Fadiga Articular, como o próprio nome indica está relacionada com os mecanismos e processos de articulação óssea.
Vamos então aprofundar a fadiga local e geral.
Fadiga Local:
Constitui o exemplo típico da fadiga de causa tissular e neuromuscular. Neste caso, o factor limitativo deve ser investigado ao nível do metabolismo do próprio músculo. Estudos da fadiga, realizados no músculo isolado e “in situ”, apontam como prováveis as seguintes localizações:
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Gollnick, 1982; Sejersted e Col., 1982; Sjostron e Friden, 1982; Mutch e Bannister, 1983)
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No processo de contracção muscular, importa ainda lembrar a existência de dois tipos de fibras musculares: as lentas ou do tipo I ou vermelhas e as rápidas, tipo II ou brancas.
Assim e simplificando, nas actividades desportivas breves e explosivas, as fibras utilizadas, são as de contracção rápida; por outro lado, nas de longa duração são as de contracção lenta. Consideram-se três mecanismos de produção de energia para a contracção muscular:
- anaeróbio aláctico
- anaeróbio láctico
- aeróbio
Dizemos então que a fadiga pode ser a nível energético, pois:
- A fadiga anaeróbia aláctica (execução de um remate), tem uma possível explicação para a diminuição da capacidade contráctil do músculo que reside na deplecção progressiva das reservas em creatinafosfato (Maglisho,1982).
- A fadiga anaeróbia láctica (várias jogadas muito prolongadas com pouco tempo de repouso), neste caso a diminuição da capacidade contráctil resulta da acidose provocada pela acumulação de lactato a nível muscular e sanguíneo (Poortmans e Col., 1978).
- A fadiga aeróbia (um jogo muito longo e muito intenso), uma das hipóteses defendida, é a deplecção das reservas em glicogénio (Costill,1979;Gollnick,1982).
Fadiga Geral:
O que diferencia, fundamentalmente, a fadiga local da geral é o facto de que na primeira é apenas o músculo que entra em falência, enquanto que a segunda repercute-se em todo o seu organismo (Plass, 1973). Esta agressão orgânica resulta da elevada percentagem de massa muscular solicitada. Para Bugard e Col. (1974), não é possível fazer funcionar simultaneamente, em regime máximo, todos os músculos do organismo e assegurar-lhes o suprimento energético suficiente. Desta forma, o factor limitativo resultaria de uma insuficiência circulatória sistémica, com todas as alterações que daí advêm.
Na realidade tudo se passa um pouco como na fadiga local, com a diferença que, neste caso, a agressão orgânica é incomparavelmente superior.
Para podermos diagnosticar a fadiga temos as análises ao sangue (técnica invasiva) e as análises à urina (mais utilizada devido a várias vantagens).
Indicadores de fadiga (doseamentos urinários):
- Proteinúria
- Mioglobinúria
- Ácido vanil-mandélico
- Na+, K+, Mg++
Indicações por parte do atleta:
- Anorexia (sem fome)
- Polidipsia (muita sede)
- Insónias
- Perda de peso
- Aumento do pulso basal
- Alterações na performance
- Alterações gastro-intestinais
- Aumento do tempo de recuperação (frequência cardíaca)
- Estados de humor (hiperagressividade e hiperemotividade)
- Fraca capacidade de adaptação ao meio envolvente
- Susceptibilidade a infecções minor (constipações, gripes, etc...)
Sinais que permitem colocar a dúvida para estados de fadiga:
- Alterações na coordenação motora
- Agravamento drástico dos resultados em competição e treino
- Perda da capacidade de concentração
- Reacções de medo
- Hipervalorização de factores estranhos ao processo de treino
Erros que podem contribuir para a instalação rápida de uma fadiga indesejável:
Responsabilidade do atleta: Responsabilidade do treinador:
- Tempo insuficiente de sono - Negligência na recuperação
- Hábitos tabagicos, etílicos, etc... - Progressão da carga ignorando os
- Insuficiente tempo de lazer processos de adaptação
- Alimentação - Excesso de competições
- Ambiente envolvente - Monotonia no processo de treino
- Número excessivo de falhanços
Níveis de fadiga
1º Crise de adaptação:
Não é observável analiticamente mas há que ficar atento, é um estado de fadiga normal após os primeiros treinos da época ou após treinos muito intensos, são sentidas algumas dores musculares que duram 3, 4, ou 5 dias.
Instala-se quando o treinador não detecta a crise de adaptação e continua a aplicar cargas para quem a resposta não é boa. Este estado tem origem nas alterações bruscas do processo de treino sem o respectivo controlo, a recuperação faz-se com um repouso activo de algumas semanas(2 ou 3 semanas praticando outras actividades).
3º Crise de sobre-treino (overtraining):
Neste caso, não se detecta no organismo do indivíduo, é o estado de fadiga mais grave, o atleta pode não voltar a ser a mesma pessoa, nem voltar a repetir as suas melhores prestações, a recuperação pode levar a uma paragem de vários meses.
Como controlo do processo o atleta deve:
- Pesar-se todos os dias de manhã, depois de urinar, e não deve haver uma diferença < 1kg em relação ao dia anterior.
- Medir todos os dias a frequência cardíaca basal(assim que acorda) em 15”, e esta não deve estar aumentada em relação ao dia anterior mais de 10 pulsações por minuto.
Retarda-se o aparecimento da fadiga por:
- Treino bem orientado
- Dieta equilibrada
- Acompanhamento psicológico
- Programa recreativo
Nem todos podem vencer. Certamente o mesmo atleta não poderá vencer sempre. A fadiga é causa de muitas derrotas, de desesperos, angústias e de sonhos desfeitos. É um obstáculo que o atleta tem de ultrapassar. Essa luta é:
- extenuante
- fatigante
- angustiante
- mas acima de tudo, gratificante.
A finalizar gostava de dirigir-me aos treinadores referindo que os processos de controlo do treino aqui debatidos devem ser entendidos como um contributo para a metodologia e teoria do treino desportivo. O treinador através da sua relação quotidiana com o atleta e baseado nos conhecimentos que possui deverá ser o primeiro a suspeitar da instalação de uma situação de fadiga. Deverá também evitá-la, através da utilização de metodologias correctas e aproveitando os contributos oriundos de outras áreas, nomeadamente a médicodesportiva.

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